quarta-feira, 13 de junho de 2007

Sítio de Santa Luzia




Ao meu redor é só mato.

É só verde.

É o som de pássaros, grilos, sapos, cigarras...

Ando pela terra...

Sigo tranqüilo

Observando as transformações do sítio de Santa Luzia.

Onde, quando menino, brincava, passeava...

Vou sem medo

Sou neto de Seu Mandu.

Homem da enxada e da semente.

Cabra-macho.

Honesto e valente de mãos e alma calejadas.

Negro que andava com uma faca

E tinha uma espingarda debaixo da cama.

Tem de tudo no sítio:

Banana, abacate, manga, jaca...

Margarida, jasmim, angélica, sorriso...

Boi, cavalo, galinha, calango...

Muitos frutos, muitas flores, muitos animais.

As crianças correm de medo a me ver passar.

Aceno com a mão, mas não respondem.

Elas me olham até que eu suma da vista delas.

A insistência do canavial distorce a boniteza do sítio.

Os coqueiros predominam.

Casas pequenas e simples.

Cumprimento o senhor que corta mato com a estrovenga.

Ele responde com alegria.

Sento no banco de coqueiros.

Onde antes sentei com minha estrela para depois...

Ah! Perfeitas lembranças.

Olho para dentro de uma casa.

Vejo um senhor desconfiado

Estendo a mão e ele vem ao meu encontro.

Falo que sou neto de Seu Mandu

E conheço Seu Benedito Bezerra.

Meu primo de quarto grau.

Há muitos anos, Seu Geraldo,

Com um saco cheio de amendoins crus, cozidos e torrados,

Percorre o sítio atravessando terras e gerações com uma bicicleta.

Diariamente se escuta sua voz:

“Olha o amendoim, faz crescer e namorar.

Moça bonita arruma namorado.

Faz donzelo casar na hora.”

Mas a urbanidade veio,

Trazendo o conforto-destrutivo,

E num carro bateu nas pernas do vendedor.

Hoje, ele vende amendoim caminhando com dificuldade.

A capela construída com o sangue dos meus antepassados.

O sorriso daquela senhora me comove.

O vestígio que sobrou do pau-brasil.

Alguns olham a rua para ver quem passa.

Os matutos conversam sobre celulares.

A ciranda toca.

A cachaça alegra e entristece.

A poeira se levanta.

Caem tanajuras.

A roça consola.

Pipa, peão, bola de gude, futebol...

O açude jardim lustral,

Fonte de água mineral.

Lata d’água na cabeça.

Fogo à lenha.

Luz de candeeiro.

Muito verde.

Cheiro verde.

Verde claro.

Verde escuro.

Verde-vagalume.

Oh! Santa Luzia, se fores mesmo dona deste paraíso,

Fazei com que o sítio não sofra ainda mais.

Porque senão o sítio não agüentará tanta maldade.

E, em breve, deixará de ser sítio para ser cidade.

2 comentários:

Unknown disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Jamille Coelho disse...

Mais uma vez, é um prazer pra mim fazer um comentário sobres seus excelentes escritos... Fico muito feliz em ter acompanhado desde o inicio toda sua dedicação em escrever poesias...e o melhor... perceber a diferença de como vc expressava seus sentimentos antes, em suas poesias...e de como estes textos estão sendo transmitidos agora... é muito notória a evolução nas entrelinhas dos poemas... não sou a primeira nem serei a última pessoa a elogiar estas mãos e idéias que conseguem colocar no papel algo tão forte..como só vc consegue. Meu amor ...pelo que tou vendo está cada vez mais próximo o dia em que seu livro será publicado..e pra mim é do caralho saber que de uma forma ou de outra acabei contribuindo para isso... agora só tá faltando planratr uma árvore... e num futuro bem distante...mas...bem diastante mesmo..ter um filho... pronto! a missão de homem na terra está completa...kkkkkkkk..te amo... etou aí para o que for preciso pra te ajudar...bnem que seja pra servir de musa inspiradora...